Eu
precisava tomar uma atitude. Era ele ou eu. Enxerguei o ódio em seu olhar. Confundi
o vazio com o ódio. O que é quase a mesma coisa. Difícil diferençar. Não sabia
que ele era cego. Não vi. Agora é tarde.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
terça-feira, 11 de março de 2014
IGUAL QUANDO SE MASTIGA OS OLHOS
Acontece
assim, você está observando a sua comida e, de repente, seus olhos caem dentro
do prato e você nem percebe e continua mastigando e sente aquele gosto mais
amargo do que doce, sem nem saber que o amargo é parte do olho que está sendo
mastigado, sem perceber que é mais amargo do que doce o que os olhos enxergam e
você continua mastigando e engolindo porque já passa um pouco da hora do almoço
e é preciso mandar a comidinha para dentro e você continua mastigando e só dá
por falta dos olhos quando vai se olhar no espelho e percebe o buraco na sua
cara e vai ficar se perguntando onde diabos perdeu os olhos como pode ter
acontecido isso e tal, aquele medo aquela angústia bem estranha para aquele
momento como naquele dia em que alguém chamado Clariceflórido, isso mesmo,
Clariceflórido baixou um pouco a vista para ver quem estava ligando para ele no
celular e viu a foto da irmã que quase nunca ligava e geralmente ele não atende
ninguém quando está dirigindo seu automóvel automático importado comprado em
sessenta suaves prestações mesmo com a entrega do automóvel anterior como
entrada, aquela irmã só ligava para dar notícias sérias e ele abaixou um pouco
mais a cabeça para apertar o botão que permite falar em voz alta ou o que
chamam de viva voz, como se toda a voz não fosse viva, e esse intervalo de
atenção no qual ele baixou a cabeça foi o suficiente para o sinal fechar, mas
ele não percebeu e cruzou a avenida central, aquela em que pesados caminhões
trafegam carregados de contêineres e outras mercadorias até mais pesadas e às
vezes mais leves e um desses caminhões, um de outras mercadorias, bateu bem no
meio do veículo de Clariceflórido que tomou um grande susto, mas com pouco
prejuízo físico uma vez que o caminhão estava em marcha lenta justamente por
estar saindo de uma via onde o sinal acabara de ficar verde e provocou o
acidente que, apesar do enorme barulho, não trouxe grandes conseqüências. Clariceflórido desceu do seu veículo um pouco
assustado e sem saber que estava tonto porque pensava que a rua estava girando
por conta do grande movimento, deu alguns passos na avenida central e você sabe
como é a avenida central com todos aqueles caminhões carregando contêineres e
outras mercadorias e um deles bateu bem no meio de Clariceflórido que voou
pelos ares igual aos olhos quando são mastigados em alguma boca distraída ou
voou como voam as ligações que fazemos entre telefones celulares, no caso, a
ligação da irmã que ficou esperando ele atender e aquela demora a irritou muito
que o xingou disso e aquilo outro, Florenciclárida, sim esse é o nome dela,
Florenciclárida queria comunicar ao irmão as drásticas mudanças ocorridas na
empresa da família, ele estava voltando de uma viagem ao interior enquanto
outros sócios solicitaram uma reunião emergencial para tratar de um assunto que
ela classificou de insólito, tanto pela sua originalidade como os
desdobramentos possíveis, tratava-se do sócio fundador, que raramente saia para
almoçar e pedia o almoço no escritório, o restaurante também não era um
restaurante qualquer que fornecia o almoço para o sócio fundador, José João ou
seu zezão como era conhecido, costumava almoçar entre treze e treze e trinta
mais ou menos, comida pouca e rápida, mas saudável e após o almoço ia para o
banheiro que ficava dentro da sua imensa sala e se deparou com dois buracos no
local onde havia os olhos, procurou pelo banheiro e na sua imensa sala e graças
a alguns cílios no cantinho do prato, até porque os cílios de seu zezão são
longos e grisalhos, como os poucos cabelos que ainda restavam na sua cabeleira
rara, constatou que havia mastigado os olhos e percebeu que o sabor era mais
amargo do que doce, seu zezão convocou uma reunião extraordinária para decidir
o que fazer depois daquele acontecimento e, mais grave, queria entender como
ele enxergava no espelho os buracos dos olhos, já que não havia mais olhos por
onde enxergar. Florenciclárida ligou para Clariceflórido, seu irmão, para
comunicar o acontecimento, mas o filho da mãe não atendia a ligação
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
ESTIMO MELHORAS A QUEM DESEJO MORTO
De vez em quando é bom visitar o inimigo. Principalmente quando ele está internado num hospital. Melhor ainda se estiver numa Unidade de Terapia Intensiva e em estado de coma não induzido. Um prazer que precisa ser exteriorizado. Visitar no horário onde o maior número possível de familiares esteja presente. Principalmente os que sabem do ódio que os une. Os que sabem da sua alegria contida nesse gesto de solidariedade que eles sabem falso. Manifestar o seu desejo de entrar na UTI e, certo dessa recusa por parte dos familiares, subornar o enfermeiro chefe com qualquer coisa que o seduza, dinheiro por exemplo. E, feliz glorioso sorridente, adentrar na UTI com uma tesoura no bolso. Uma tesoura longa e bem amolada. Certificar-se de que alguns daqueles parentes próximos estejam do outro lado do vidro e assista você tocar na mão do inimigo tocar nos tubos. Tocar no futuro e imaginar um daqueles parentes próximos relatando ao inimigo aquela maravilhosa visita o seu toque na mão e nos tubos. O gesto da sua mão que entra no bolso e lentamente retira a tesoura e a angústia daqueles parentes que ao virem gritam no meio da sala de espera como tantos outros gritam diante da notícia da morte. Enquanto você utiliza a tesoura para aparar as unhas do inimigo. Até a chegada do enfermeiro corrupto e a repreensão pela utilização de equipamento não autorizado. Você explica dos arranhões que sofreu no último embate, mas o enfermeiro não quer escutar. Aceita a reclamação e retira-se sendo agredido por aqueles parentes que se dizem próximos. E você, mesmo com o lábio cortado, o hematoma no olho, perdoa a todos porque aqueles não são seus inimigos, mas não perdoa o inimigo que se entregou a uma doença não provocada por você. E, sinceramente, estima que ele melhore o mais rápido possível, para que o seu ódio se prolongue por mais algum tempo e sua vida volte a ter sentido quando o inimigo cair por golpes desferidos diretamente por você.
ESTIMO MELHORAS A QUEM DESEJO MORTO
De vez em quando é bom visitar o inimigo. Principalmente quando ele está internado num hospital. Melhor ainda se estiver numa Unidade de Terapia Intensiva e em estado de coma não induzido. Um prazer que precisa ser exteriorizado. Visitar no horário onde o maior número possível de familiares esteja presente. Principalmente os que sabem do ódio que os une. Os que sabem da sua alegria contida nesse gesto de solidariedade que eles sabem falso. Manifestar o seu desejo de entrar na UTI e, certo dessa recusa por parte dos familiares, subornar o enfermeiro chefe com qualquer coisa que o seduza, dinheiro por exemplo. E, feliz glorioso sorridente, adentrar na UTI com uma tesoura no bolso. Uma tesoura longa e bem amolada. Certificar-se de que alguns daqueles parentes próximos estejam do outro lado do vidro e assista você tocar na mão do inimigo tocar nos tubos. Tocar no futuro e imaginar um daqueles parentes próximos relatando ao inimigo aquela maravilhosa visita o seu toque na mão e nos tubos. O gesto da sua mão que entra no bolso e lentamente retira a tesoura e a angústia daqueles parentes que ao virem gritam no meio da sala de espera como tantos outros gritam diante da notícia da morte. Enquanto você utiliza a tesoura para aparar as unhas do inimigo. Até a chegada do enfermeiro corrupto e a repreensão pela utilização de equipamento não autorizado. Você explica dos arranhões que sofreu no último embate, mas o enfermeiro não quer escutar. Aceita a reclamação e retira-se sendo agredido por aqueles parentes que se dizem próximos. E você, mesmo com o lábio cortado, o hematoma no olho, perdoa a todos porque aqueles não são seus inimigos, mas não perdoa o inimigo que se entregou a uma doença não provocada por você. E, sinceramente, estima que ele melhore o mais rápido possível, para que o seu ódio se prolongue por mais algum tempo e sua vida volte a ter sentido quando o inimigo cair por golpes desferidos diretamente por você.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
TOP DE LINHA
Duílio começou roubando na feira. Bolsas. Carteiras. Senhoras e senhores descuidados. Depois centro da cidade. Continuou o descuidismo. Qualquer objeto que se distraísse do dono passava a ser seu. Guardava dinheiro. Queria comprar uma arma e tomar posse de objetos maiores. Queria na verdade ser top de linha. Entrar pela porta da frente do banco com um fuzil na mão. Gritando. Por enquanto a padaria do bairro e a farmácia serviam. Surgiu a oportunidade. Precisavam de um cara pra entrar gritando num banco com um fuzil na mão e ele se apresentou. Finalmente seria um top de linha. Mas o que ele não sabia é que os tops de linha sempre usavam um novato como bucha de canhão. O anteparo para o primeiro tiro. E ele levou o primeiro tiro e o segundo e um terceiro. Apagou. Acordou algemado na cama do hospital. E não precisava ser top de linha pra saber que o silêncio é amigo da vida e irmão da dor. Os policiais o interrogaram com uma mão em cima do ferimento. Pressionaram até que ele desmaiasse. Acordava e dormia. Ainda estava vivo quando transferiram seu corpo para outra maca e ficou assistindo as luzes do corredor iluminando seu rosto. Entrou na ambulância. Estava muito cansado daquilo tudo. Reconheceu a voz que chamava seu nome. Alguns dos seus colegas estavam ali na ambulância disfarçados de enfermeiros. Viemos te buscar disseram. Guardamos sua parte. Você é o cara. De boca fechada não sai palavra e nem entra comida suja. Duílio estava feliz. Alcançou seu sonho. Era um top de linha. Agora podia descansar. Fechou os olhos. Mas não sabia que era pela última vez.
terça-feira, 12 de abril de 2011
SOM NO ÔNIBUS
Toma.
O que é isso?
Um fone de ouvido.
Sim, eu sei, mas pra quê eu quero isso?
Isso serve pra colocar no ouvido. Você enfia esse plugue aqui no celular e essas duas almofadinhas aqui, tá vendo Você enfia cada uma em um dos ouvidos...
Sim, eu sei como usa, não tô entendendo porque você tá me dando isso.
Pra você ouvir a sua musiquinha bem baixinho sem precisar a gente ficar ouvindo, entendeu agora?
Mas eu não quero ouvir no fone de ouvido, quero ouvir assim como tô ouvindo.
Mas acontece que a gente não tá afim de ouvir essa sua música.
A gente quem? Por acaso você tem procuração pra falar pelos outros? Se você tá incomodado que assuma sozinho.
Eu tô incomodado e muita gente aqui também tá. Só que eu tenho coragem de falar e os outros ficam calados.
Bom cara, problema teu. Eu não vou botar esse trocinho no ouvido não. Isso ofende o ouvido sabia?
Quem ofende o ouvido é esse som que você tá ouvido
Um pau que ofende...
Olha a baixaria, to falando com educação, tem criança e senhoras aqui no recinto.
Pra teu governo não vou baixar o som não, cara. E aí tu vai fazer o quê? Vai me bater, vai me jogar pela janela e aí?
Preste atenção, você ainda é muito jovem, seus pais não lhe deram boa educação...
Não vem falar da minha mãe não cara, tá me estranhando? Qual é?
Nós estamos num coletivo. Sabe o que significa coletivo?
Sei, cardume é de peixe, esquadria é de avião, coletivo de otário é tu e tua família toda.
Tô já perdendo a paciência contigo, não me ofende não nem minha família. Otário é você com esse som ridículo.
E aí vai perder a paciência e vai fazer o quê pra achar ela, vai me bater, vai jogar meu som fora? Não enche meu saco não cara. Fica na tua é melhor pra tu.
Como eu tava dizendo estamos num coletivo e é preciso respeitar os que estão dentro do coletivo, não fazer barulho, respeitar o espaço do outro, tratar com civilidade às pessoas...
Olha cara, tás parecendo meu professor de cidadania, to afim não, já larguei, vai te catar. Se tu queria impedir que eu ouvisse meu som conseguisse. Vou descer nessa. Da próxima vez que eu te encontrar e vier com esse papo de desligar meu som, não vai prestar não cara.
Isso é uma ameaça?
É só um aviso. Vou te ensinar onde colocar o plugue.
Vai cara, já vai tarde.
O rapaz desce e faz gestos obscenos para o outro que ficou no ônibus.
Olha só que juventude é essa, não respeita ninguém. Mas pelo menos durante a discussão não ouvimos aquela música horrível.
O que é isso?
Um fone de ouvido.
Sim, eu sei, mas pra quê eu quero isso?
Isso serve pra colocar no ouvido. Você enfia esse plugue aqui no celular e essas duas almofadinhas aqui, tá vendo Você enfia cada uma em um dos ouvidos...
Sim, eu sei como usa, não tô entendendo porque você tá me dando isso.
Pra você ouvir a sua musiquinha bem baixinho sem precisar a gente ficar ouvindo, entendeu agora?
Mas eu não quero ouvir no fone de ouvido, quero ouvir assim como tô ouvindo.
Mas acontece que a gente não tá afim de ouvir essa sua música.
A gente quem? Por acaso você tem procuração pra falar pelos outros? Se você tá incomodado que assuma sozinho.
Eu tô incomodado e muita gente aqui também tá. Só que eu tenho coragem de falar e os outros ficam calados.
Bom cara, problema teu. Eu não vou botar esse trocinho no ouvido não. Isso ofende o ouvido sabia?
Quem ofende o ouvido é esse som que você tá ouvido
Um pau que ofende...
Olha a baixaria, to falando com educação, tem criança e senhoras aqui no recinto.
Pra teu governo não vou baixar o som não, cara. E aí tu vai fazer o quê? Vai me bater, vai me jogar pela janela e aí?
Preste atenção, você ainda é muito jovem, seus pais não lhe deram boa educação...
Não vem falar da minha mãe não cara, tá me estranhando? Qual é?
Nós estamos num coletivo. Sabe o que significa coletivo?
Sei, cardume é de peixe, esquadria é de avião, coletivo de otário é tu e tua família toda.
Tô já perdendo a paciência contigo, não me ofende não nem minha família. Otário é você com esse som ridículo.
E aí vai perder a paciência e vai fazer o quê pra achar ela, vai me bater, vai jogar meu som fora? Não enche meu saco não cara. Fica na tua é melhor pra tu.
Como eu tava dizendo estamos num coletivo e é preciso respeitar os que estão dentro do coletivo, não fazer barulho, respeitar o espaço do outro, tratar com civilidade às pessoas...
Olha cara, tás parecendo meu professor de cidadania, to afim não, já larguei, vai te catar. Se tu queria impedir que eu ouvisse meu som conseguisse. Vou descer nessa. Da próxima vez que eu te encontrar e vier com esse papo de desligar meu som, não vai prestar não cara.
Isso é uma ameaça?
É só um aviso. Vou te ensinar onde colocar o plugue.
Vai cara, já vai tarde.
O rapaz desce e faz gestos obscenos para o outro que ficou no ônibus.
Olha só que juventude é essa, não respeita ninguém. Mas pelo menos durante a discussão não ouvimos aquela música horrível.
quinta-feira, 24 de março de 2011
O OBREIRO E A DIABAZINHA
Pelo vão da porta do ônibus aberta Dalva põe a cabeça e pergunta ao motorista:
- Adeilton tá por aí?
- quem senhora?
- Adeilton, meu marido, ele tá nesse ônibus?
Uma pessoa na parada do ônibus gesticula pra o motorista que se trata de uma maluca. O motorista desconversa e dá a partida.
Adeilton fugiu num ônibus igual àquele num final de tarde juntamente com a vizinha menor de quinze anos. A tal que andava com aqueles shortinhos, com aquelas blusinhas, mostrando tudo. Adeilton era casado com Dalva, não tinha filhos, homem bom e generoso, não bebia, não fumava, nem gritava em casa nem na rua. Era obreiro numa igreja evangélica e um dia a mãe da vizinha veio pedir ajuda pra filhinha de quinze anos que estava parecendo possessa, querendo quebrar as coisas dentro de casa, Adeilton, bondoso, na intenção de minimizar o sofrimento daquela mãe desesperada, prontificou-se em ajudar e foi até a casa carregando a bíblia. A menina não ouvia ninguém, conseguiu levá-la até o quarto e trancou-se com ela. A menina mostrou ao obreiro o demônio do amor no corpo e o seduziu. Adeilton nunca imaginou que uma mulher, ou melhor, que uma menina de quinze anos poderia fazer tudo aquilo que ela fez com ele. Esqueceu os versículos só lembrou dos testículos e se deixou levar pelo demônio, ela o fez enxergar um maravilhoso inferno e não mais voltou. Ficou por lá, fez as malas e partiu num ônibus no final da tarde. Para desespero de Dalva e alegria da endemoniada.
Foram morar em outra cidade. Adeilton era pedreiro de mão cheia, excelente profissional, arrumou logo emprego e dava pra sustentar os caprichos da nova companheira. Chegava cansado apesar de jovem não tinha fôlego pra sustentar os malabarismos da diabinha. Sabia que durante o dia ela fazia suas estripulias. Usava aqueles shortinhos, aquelas blusinhas. Inventou usar também umas minissaias de meio palmo que o deixava louquinho. Aprender a administrar o ciúme. Era o preço pela troca de vida. Também não se sentia culpado, aconteceu e descobriu que não era tão forte assim. Depois quem não consegue salvar a si próprio, não tem capacidade pra salvar o mundo. Preferiu seguir assim, entregue aos caprichos de Melina, a sua diabinha, cultivando labaredas no inferno.
- Adeilton tá por aí?
- quem senhora?
- Adeilton, meu marido, ele tá nesse ônibus?
Uma pessoa na parada do ônibus gesticula pra o motorista que se trata de uma maluca. O motorista desconversa e dá a partida.
Adeilton fugiu num ônibus igual àquele num final de tarde juntamente com a vizinha menor de quinze anos. A tal que andava com aqueles shortinhos, com aquelas blusinhas, mostrando tudo. Adeilton era casado com Dalva, não tinha filhos, homem bom e generoso, não bebia, não fumava, nem gritava em casa nem na rua. Era obreiro numa igreja evangélica e um dia a mãe da vizinha veio pedir ajuda pra filhinha de quinze anos que estava parecendo possessa, querendo quebrar as coisas dentro de casa, Adeilton, bondoso, na intenção de minimizar o sofrimento daquela mãe desesperada, prontificou-se em ajudar e foi até a casa carregando a bíblia. A menina não ouvia ninguém, conseguiu levá-la até o quarto e trancou-se com ela. A menina mostrou ao obreiro o demônio do amor no corpo e o seduziu. Adeilton nunca imaginou que uma mulher, ou melhor, que uma menina de quinze anos poderia fazer tudo aquilo que ela fez com ele. Esqueceu os versículos só lembrou dos testículos e se deixou levar pelo demônio, ela o fez enxergar um maravilhoso inferno e não mais voltou. Ficou por lá, fez as malas e partiu num ônibus no final da tarde. Para desespero de Dalva e alegria da endemoniada.
Foram morar em outra cidade. Adeilton era pedreiro de mão cheia, excelente profissional, arrumou logo emprego e dava pra sustentar os caprichos da nova companheira. Chegava cansado apesar de jovem não tinha fôlego pra sustentar os malabarismos da diabinha. Sabia que durante o dia ela fazia suas estripulias. Usava aqueles shortinhos, aquelas blusinhas. Inventou usar também umas minissaias de meio palmo que o deixava louquinho. Aprender a administrar o ciúme. Era o preço pela troca de vida. Também não se sentia culpado, aconteceu e descobriu que não era tão forte assim. Depois quem não consegue salvar a si próprio, não tem capacidade pra salvar o mundo. Preferiu seguir assim, entregue aos caprichos de Melina, a sua diabinha, cultivando labaredas no inferno.
O BURACO
Eu fiz esse buraco. Não foi difícil. Havia disposição, ferramentas novas, cimento antigo, terra fofa. Havia principalmente tempo. Ninguém pediu para que eu fizesse. Foi uma decisão minha. Ninguém estipulou prazo ou modo de fazer. Foi um trabalho tranqüilo. O ritmo foi meu. Constante. Nem houve cansaço. Houve até prazer confesso. E um buraco feito dessa maneira não obedece a um plano predeterminado. Não pensei se poderia encontrar água. Da terra ou aquelas presas em canos. Não encontrei nenhuma das duas tive sorte. O local foi bem escolhido reconheço. Minha única dificuldade foi perceber a hora de parar. Nem sei se parei porque alcancei o que gostaria ou imaginava, ou porque não alcanço mais a abertura. A terra que jogo para fora formou um pequeno monte ao redor e parte dela está voltando em pequenas nuvens que me sujam. Toda vez que cavo as paredes ao redor tremem um pouco provocando a queda de mais terra. Não estou preocupado em sair daqui. Estou preocupado em não poder cavar mais. Eu sempre quis cavar um buraco desses. Surgiu essa oportunidade e não me organizei da melhor maneira. Deveria ter instalado uma roldana para retirar os baldes de terra. Pensei que utilizando pás faria isso com tranqüilidade. Talvez eu pensasse que não chegaria tão longe. Que em determinado momento eu pararia. Por cansaço ou por descobrir a situação ridícula em que eu estava me metendo. Talvez eu quisesse ficar naquela situação mesmo e agora preciso sentar e pensar um pouco.
É estranho o céu visto do fundo de um buraco. Lembra uma luneta sem lente. Quero dizer no caso de um buraco redondo como eu fiz. Alguém disse que a melhor maneira de sair do buraco é parar de cavar. Agora estou pensando na melhor maneira de continuar cavando.
É estranho o céu visto do fundo de um buraco. Lembra uma luneta sem lente. Quero dizer no caso de um buraco redondo como eu fiz. Alguém disse que a melhor maneira de sair do buraco é parar de cavar. Agora estou pensando na melhor maneira de continuar cavando.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
O TOCO
Beroaldo chegou com dois mapas de sangue nas mãos, numa alguns caminhos, noutra atalhos. Eu preferi ficar e lavei com águas impossíveis os dados apresentados. Beroaldo queria guardar, desenrolar e fixar em molduras, era tarde, o ralo bebeu as coisas líquidas e arrotou azinhavre.
Onde aqueles desenhos perguntei. Falou de Altamiro distraído podando árvores, folhas, galhos, parte do tronco, ficou o toco quando deu por si. Prestava atenção àquela distração e guardou a sombra com muito cuidado devido aos espinhos que a sombra guarda pra se fixar nas coisas. Do bolso desdobrou a sombra e a esticou no varal com a minha ajuda e luvas pra evitar novos mapas. Não deu pra guardar passarinhos, folhas, lagartos, sagüins, flores, frutas, era mais difícil segurar a sombra, priorizou.
Vesti duas calças e cinco camisas, o vento puxava minha pele naqueles dias, apesar do verão, fomos ao local permitir escolhas, angariar preenchimento dos vazios, um metro e vinte e sete centímetros senti com os olhos, da terra batida até onde os dentes de Altamiro mascaram. Hora do almoço e forramos a toalha das promessas sobre o toco. Trocamos fomes conversadas, águas, migalhas de um medo devastado. Altamiro àquela hora noutro lugar, longe da distração, atento ao mundo que lhe abraça sem nenhum carinho. Nem pensava naquela situação porque estava sozinho.
Perguntei como fazer pra retirar o toco. Beroaldo não entendeu tirar o toco como única opção. Queria outras coisas, enfeite, monte de madeira, interrupção de caminhada, hiato de caminhante distraído, tinha razão. Pensei curto e sem os olhos. Fome de resolver coisas sem pensamentos largos. Almino, observador do ócio, sem cabeça porque com ela poderia voar, sem corpo porque com ele poderia agüentar, sugeriu o refazimento do improvável porque era da sua lide o aparente improvável. Juntei os desocupados possíveis, aglomerados uns sobre os outros, formamos o tronco, os galhos, assanhamos os cabelos como folhas. Menos eu porque quando quis mostrar o rosto para a terra perdi os cabelos, pintei o que sobrou de verde e me pus no lugar mais alto, ocupamos o espaço falso criado, fotossintetizamos nossa solidariedade e abraçamos os seres necessários.
Onde aqueles desenhos perguntei. Falou de Altamiro distraído podando árvores, folhas, galhos, parte do tronco, ficou o toco quando deu por si. Prestava atenção àquela distração e guardou a sombra com muito cuidado devido aos espinhos que a sombra guarda pra se fixar nas coisas. Do bolso desdobrou a sombra e a esticou no varal com a minha ajuda e luvas pra evitar novos mapas. Não deu pra guardar passarinhos, folhas, lagartos, sagüins, flores, frutas, era mais difícil segurar a sombra, priorizou.
Vesti duas calças e cinco camisas, o vento puxava minha pele naqueles dias, apesar do verão, fomos ao local permitir escolhas, angariar preenchimento dos vazios, um metro e vinte e sete centímetros senti com os olhos, da terra batida até onde os dentes de Altamiro mascaram. Hora do almoço e forramos a toalha das promessas sobre o toco. Trocamos fomes conversadas, águas, migalhas de um medo devastado. Altamiro àquela hora noutro lugar, longe da distração, atento ao mundo que lhe abraça sem nenhum carinho. Nem pensava naquela situação porque estava sozinho.
Perguntei como fazer pra retirar o toco. Beroaldo não entendeu tirar o toco como única opção. Queria outras coisas, enfeite, monte de madeira, interrupção de caminhada, hiato de caminhante distraído, tinha razão. Pensei curto e sem os olhos. Fome de resolver coisas sem pensamentos largos. Almino, observador do ócio, sem cabeça porque com ela poderia voar, sem corpo porque com ele poderia agüentar, sugeriu o refazimento do improvável porque era da sua lide o aparente improvável. Juntei os desocupados possíveis, aglomerados uns sobre os outros, formamos o tronco, os galhos, assanhamos os cabelos como folhas. Menos eu porque quando quis mostrar o rosto para a terra perdi os cabelos, pintei o que sobrou de verde e me pus no lugar mais alto, ocupamos o espaço falso criado, fotossintetizamos nossa solidariedade e abraçamos os seres necessários.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
AS FORMAS DO SILÊNCIO
Rúbia entrou no quarto com o facão escondido sob a blusa. Fechou a porta e retirou a chave. Vi todo o movimento, mas fingi estar dormindo. Sempre em decúbito lateral direito eu deitava virado para ela, observava seus cabelos negros sobre a pele ressecada pelo sol e sentia o seu hálito quente no meu rosto. Naquela noite escolhi o decúbito lateral esquerdo, dei as costas para ela e esperei os golpes. O primeiro veio na altura do pescoço, o segundo no rim, o terceiro nas costas, Rúbia era forte e rápida, cortadora de cana, acostumada com essas coisas rudes.
Existem duas maneiras de ficar em silêncio.
A minha preferida é ficar em silêncio falando.
Consiste em não falar coisa com coisa, de preferência com um interlocutor que, obviamente, não quer o seu silêncio de maneira alguma, e aceita qualquer assunto que for tocado.
Por exemplo, falei num determinado momento a respeito da sombra que a porta provoca dentro da casa.
Ela disse que quem provoca a sombra dentro de uma casa é o teto.
Se a casa tiver teto, respondi.
Toda casa tem teto, aliás, teto é sinônimo de casa, sabia?
Conheço gente que mora em casa sem teto, sem paredes e sem cômodos.
Se não tem paredes nem teto, como fica a história da porta fazendo sombra?
Explico, quando num piso qualquer, com a ajuda de um pedaço de pau ou de um giz, riscamos o desenho de uma casa, fazemos o contorno e as divisões dos cômodos, e mostramos esse desenho pra alguém, o primeiro olhar vai para a porta de entrada, perguntam logo, como entramos na casa?
E daí?
Daí a sombra da porta se sobrepõe sobre todo o restante da casa.
Então você fala não da sombra sob a luz que se forma, e sim da sombra metafórica da porta que se abre para a casa.
Na verdade eu falava a respeito da sombra que se forma sob a luz, eu ainda não havia pensado dessa maneira que você mencionou, mas gostei disso.
Noutro momento falei a respeito das cores das folhas, defendi a idéia de que todas as folhas tem a mesma cor.
Impossível, respondeu de imediato. Basta comparar uma folha com outra e essa idéia estará liquidada.
Tem certeza?
Tenho.
Eu estava tranqüilo, não havia folhas nas nossas árvores. Encontrei folhas de papel e pintei uma verde clara e outra verde escura.
Assim é muito fácil. E as folhas que não são verdes, onde entram nessa sua teoria?
As folhas que não são verdes, simplesmente não são folhas. São falhas. Entendeu?
Nada que é da natureza pode ser considerada falha. Tudo tem um motivo e uma razão de ser. Essa sua idéia está completamente furada.
Quando eu consegui guardar a saliva suficiente pra regar meu sonho, vou deixar um espaço para que as folhas escapem desse momento e vou mostrar a você como funcionam as cores e as conseqüências.
Então trate de dormir logo. Esse sonho ainda vai demorar muito.
Noutro momento falei a respeito do homem que preferia o silêncio sem falar. Ela queria saber como isso era possível. Então calei. Fiquei alguns dias sem deixar que a contestação a alimentasse. Ela não suportou.
O silêncio sem falar é o mesmo da morte, não há como dividir as palavras que não são mencionadas. Não ofereci a ela nem um grito enquanto o facão me atravessava.
Existem duas maneiras de ficar em silêncio.
A minha preferida é ficar em silêncio falando.
Consiste em não falar coisa com coisa, de preferência com um interlocutor que, obviamente, não quer o seu silêncio de maneira alguma, e aceita qualquer assunto que for tocado.
Por exemplo, falei num determinado momento a respeito da sombra que a porta provoca dentro da casa.
Ela disse que quem provoca a sombra dentro de uma casa é o teto.
Se a casa tiver teto, respondi.
Toda casa tem teto, aliás, teto é sinônimo de casa, sabia?
Conheço gente que mora em casa sem teto, sem paredes e sem cômodos.
Se não tem paredes nem teto, como fica a história da porta fazendo sombra?
Explico, quando num piso qualquer, com a ajuda de um pedaço de pau ou de um giz, riscamos o desenho de uma casa, fazemos o contorno e as divisões dos cômodos, e mostramos esse desenho pra alguém, o primeiro olhar vai para a porta de entrada, perguntam logo, como entramos na casa?
E daí?
Daí a sombra da porta se sobrepõe sobre todo o restante da casa.
Então você fala não da sombra sob a luz que se forma, e sim da sombra metafórica da porta que se abre para a casa.
Na verdade eu falava a respeito da sombra que se forma sob a luz, eu ainda não havia pensado dessa maneira que você mencionou, mas gostei disso.
Noutro momento falei a respeito das cores das folhas, defendi a idéia de que todas as folhas tem a mesma cor.
Impossível, respondeu de imediato. Basta comparar uma folha com outra e essa idéia estará liquidada.
Tem certeza?
Tenho.
Eu estava tranqüilo, não havia folhas nas nossas árvores. Encontrei folhas de papel e pintei uma verde clara e outra verde escura.
Assim é muito fácil. E as folhas que não são verdes, onde entram nessa sua teoria?
As folhas que não são verdes, simplesmente não são folhas. São falhas. Entendeu?
Nada que é da natureza pode ser considerada falha. Tudo tem um motivo e uma razão de ser. Essa sua idéia está completamente furada.
Quando eu consegui guardar a saliva suficiente pra regar meu sonho, vou deixar um espaço para que as folhas escapem desse momento e vou mostrar a você como funcionam as cores e as conseqüências.
Então trate de dormir logo. Esse sonho ainda vai demorar muito.
Noutro momento falei a respeito do homem que preferia o silêncio sem falar. Ela queria saber como isso era possível. Então calei. Fiquei alguns dias sem deixar que a contestação a alimentasse. Ela não suportou.
O silêncio sem falar é o mesmo da morte, não há como dividir as palavras que não são mencionadas. Não ofereci a ela nem um grito enquanto o facão me atravessava.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
JOGOS DE ARMAR
JOGOS DE ARMAR
Como você conseguiu fazer isso?
Elas sempre me perguntavam isso e eu nunca respondia. Perguntem-se pelo azul do céu. Por que o cinza das nuvens interrompe a cor para nos trazer a chuva, tornando a grama mais verde. Os homens deveriam aproveitar esse momento deitar-se na grama e receber a chuva tornando-se mais verdes e viçosos. No entanto eles abrem guarda-chuvas ou se abrigam, um despautério. Perguntem-se como os lutadores devem agir diante do adversário. Os que são melhores na defesa esperam o golpe, esquivam-se e partem para o contra-ataque fatal ou os que são melhores no ataque, desferem seus golpes certeiros, apesar de saber do contragolpe e treinam o suficiente para absorvê-lo. Os lutadores agem conforme o adversário e administram a luta conforme as necessidades do embate. Então me perguntam como consegui fazer isso e eu jamais responderei.
Gostaria que você tomasse cuidado comigo, ainda sou virgem.
Eu ia responder dizendo que era de capricórnio para tornar o ambiente mais ameno, mas eu não queria isso, queria o ambiente pesado, tenso, teso. Respondi perguntando por que eu deveria ter cuidado com ela. As pessoas querem que tenhamos cuidado com elas, cuidado em qual sentido? Pergunto-me. Cuidado pelo o que elas podem fazer conosco ou pelo que podemos fazer por elas? Que cuidado é esse? Até que ponto somos responsáveis pelo outro? Uma mãe gera uma criança no seu ventre e depois que a expele precisa tomar conta daquele corpo pelo resto da vida, tomar conta do corpo e dos anexos, seus desejos, vontades, necessidades e tudo o mais que compõe o que chamam de ser humano. Essa responsabilidade é contraditoriamente desumana. Você cria a necessidade de disponibilizar o seu corpo mutuamente com o outro que escolheu pra viver o resto da vida. Por que preciso tomar cuidado com o outro? Devo tomar cuidado comigo mesmo, não sei o que vou pensar daqui a alguns minutos. Quero dizer que sei muito bem o que vou fazer, mas ainda não sei o que vou pensar. Pensar e fazer não estão diretamente relacionados.
Você quer fazer como? Perguntei. Ela afastou um pouco a cortina, observou o jardim. Voltou-se em direção a cama depositando a bolsa sobre o criado-mudo. Voltou para a janela abriu novamente a cortina.
Ainda não sei. Respondeu finalmente.
Quem diz que não sabe o que quer sabe pelo menos muito bem o que quer dizer com isso. Quer que o outro saiba por ela e tome os direcionamentos necessários para realizar o que de fato ela quer. Principalmente na situação em que estávamos. Eu estava encostado na porta, virei a chave e guardei no bolso da calça sem que ela percebesse. Desabotoei a camisa lentamente. Aquela conversa não estava me excitando, se demorasse muito talvez me desse até enjôo.
Então vai ficar por minha conta? Perguntei já tirando a camisa e pendurando no cabide. Ela voltou-se e viu o meu peito. Notei seu ar de espanto. Fiz de propósito, isso sempre funcionava. Sentou-se na cama e não tirou mais os olhos de mim. Isso sim começou a me excitar.
Inacreditável. Ela disse sorrindo passando as mãos nos cabelos. Sinal visível de nervosismo.
As pessoas acreditam em coisas que nunca viram. Outras elas vêem e repetem aquela frase ridícula do inacreditável. Está ali na sua frente e elas dizem que não conseguem acreditar. No entanto nunca viram Deus e acham que ele tá lá em cima tomando conta disso aqui. Isso sim pra mim é inacreditável. Quando faço uma coisa faço bem feita, procuro o máximo de perfeição. Não deixo margem para questionamentos de quem quer que seja principalmente a própria coisa feita se questionar. Imagine eu criar o homem e plantar nele a sementinha do livre arbítrio, um cara com os atributos de Deus jamais faria uma burrice dessas. A mistificação da estupidez. Acredite no que você vê no que você toca. No que você sente é mais complicado. Como você vai saber se o que está sentindo é realmente o que está sentindo? Como descrever o amor ou o ódio? Você vai ter que recorrer a palavras e aí meu amigo, palavras certas para o lugar certo é o grande problema. E a palavra certa no lugar certo raramente encontra o leitor ideal. Ou o leitor ideal não está propenso a entender o que a palavra certa quer dizer. Você também pode recorrer a gestos para demonstrar o que está sentindo e vamos incorrer em situações mais complicadas. Um gesto de ódio vai gerar agressão, um gesto de amor um carinho, vamos fatalmente convergir para aquele papo da Física da ação que corresponde a uma reação de efeito contrário, mas sentimentos estão fora da Física, uma agressão pode gerar revide ou fuga, um carinho pode gerar outro ou fuga ou uma agressão, mais uma vez vamos depender do outro. Inacreditável é o outro.
Tirei os sapatos e as meias e joguei ao lado. Comecei a desabotoar e fui caminhando em direção à cama. Fiquei de costas e desci a calça lentamente. Eu nunca usei cuecas. O maravilhoso traseiro se apresentou aos seus olhos. Observei pelo espelho a sua reação. Joguei a calça longe. Mantive as pernas um pouco abertas.
E agora? O que faço? Perguntou ela. Ainda não sabia o que queria. Mas sabia o que eu deveria fazer considerando tudo que ela falou. Quase nada. Mas suficiente para as minhas conclusões. Virei lentamente. Apresentei meu sexo quase colado ao seu rosto.
Mas como isso é possível?
Algumas pessoas passam a vida toda fazendo perguntas. Algumas elas sabem que não existem respostas. Perguntam para provocar o espanto no outro. Algumas perguntas têm respostas, mas elas não têm coragem de procurar e esperam que o outro passe por essa situação de mostrar que a resposta era aquela ou no meio do caminho desviar e dar quase a resposta correta ou desviar e desembocar no maravilhoso mundo da mentira da fantasia e da viagem por caminhos que só as perguntas podem nos levar. Aquela pessoa não fez outra coisa além de perguntar. Eu não tinha as respostas que ela queria. Ela estava nervosa. Não sei exatamente o que falaram a meu respeito, mas eu não faria com ela o que fiz com as outras. Eu nunca repito o que faço. Se ela está esperando as coisas que eu fiz com a amiga que me indicou está muito enganada. A pista para os meus procedimentos ela deu. Era virgem. Queria que eu tomasse cuidado com ela. Isso significa que não devo tomar cuidado algum e que ela quer ser estuprada e é isso que ela vai ter.
O que falaram a meu respeito? Perguntei talvez por curiosidade talvez para que ela dissesse alguma coisa diferente de uma pergunta.
Falaram que você é terrível. Que é um cara violento. Que é um fenômeno da natureza, um incrível fenômeno da natureza. Está aqui bem na minha frente esse corpo másculo maravilhoso, essas pernas, coxas, barriga, braços, peito e essa incrível e inesperada buceta no meio das pernas. Eu me pergunto como você conseguiu fazer isso?
Sempre a pergunta. Peguei sua mão direita e dirigi em direção à minha gigantesca buceta depilada, ela sentiu o clitóris se expandindo como a língua do céu se desenrola. Lento e azulado. Dei um passo para trás e desferi o soco na ponta do queixo o suficiente para que ela desmaiasse. Perfeito. Era o tipo que não se deixaria amarrar livremente. Presos os braços e as pernas, tirei suas roupas e esperei que ela acordasse. A mordaça impediria aquelas malditas perguntas.
Ver aquele corpo inerte e à mercê me fez lembrar de coisas que eu pensava ter esquecido e que vieram junto com um sentimento que não consigo descrever. Lembranças da vida toda que, dizem, sempre acontece antes de alguém morrer, mas eu não estava morrendo, ao contrário, estava com uma vida em minhas mãos e poderia dispô-la do jeito que eu bem entendesse. Divago. O assassinato não faz parte do contrato. O que ela me ofereceu para trabalhar foi a preservação de uma virgindade e a impossibilidade de machucá-la. Abro a maleta. Bisturis, afastadores, serras, martelo, chaves de fenda, facas, pênis siliconado de vinte e cinco centímetros, outro de vinte centímetros, lubrificantes, outros pequenos utensílios que não vale a pena mencionar aqui. Sinto a falta de alguma coisa, depois vou me lembrar. Retiro o pênis de vinte e cinco centímetros, encaixo no cinto e amarro na cintura. Ela está demorando muito a acordar. Talvez estivesse cansada. Lembrei dos gerânios no jardim, precisam de luz e de duas a três regas por semana, cuidados para não borrifar as folhas, gostam de ambientes secos, evitar empoçar água para não prejudicar a raiz. Gosto de gerânios, de azaléias, de gardênias, gosto da maioria das flores. Ninguém precisa ensinar uma flor a voltar, elas voltam sozinhas. Lembrei do que estava faltando na maleta, o gerânio seco que guardo num dos bolsos laterais, vou colher outro e substituir. Ela ainda não acordou, vou fazê-la cheirar amoníaco. Mesmo quando podamos uma flor, ela não precisa que ninguém a ensine a voltar, ela sabe voltar, o mesmo não acontece com os humanos, precisamos tomar muito cuidado na hora do corte, sangue não sabe voltar.
Como você conseguiu fazer isso?
Elas sempre me perguntavam isso e eu nunca respondia. Perguntem-se pelo azul do céu. Por que o cinza das nuvens interrompe a cor para nos trazer a chuva, tornando a grama mais verde. Os homens deveriam aproveitar esse momento deitar-se na grama e receber a chuva tornando-se mais verdes e viçosos. No entanto eles abrem guarda-chuvas ou se abrigam, um despautério. Perguntem-se como os lutadores devem agir diante do adversário. Os que são melhores na defesa esperam o golpe, esquivam-se e partem para o contra-ataque fatal ou os que são melhores no ataque, desferem seus golpes certeiros, apesar de saber do contragolpe e treinam o suficiente para absorvê-lo. Os lutadores agem conforme o adversário e administram a luta conforme as necessidades do embate. Então me perguntam como consegui fazer isso e eu jamais responderei.
Gostaria que você tomasse cuidado comigo, ainda sou virgem.
Eu ia responder dizendo que era de capricórnio para tornar o ambiente mais ameno, mas eu não queria isso, queria o ambiente pesado, tenso, teso. Respondi perguntando por que eu deveria ter cuidado com ela. As pessoas querem que tenhamos cuidado com elas, cuidado em qual sentido? Pergunto-me. Cuidado pelo o que elas podem fazer conosco ou pelo que podemos fazer por elas? Que cuidado é esse? Até que ponto somos responsáveis pelo outro? Uma mãe gera uma criança no seu ventre e depois que a expele precisa tomar conta daquele corpo pelo resto da vida, tomar conta do corpo e dos anexos, seus desejos, vontades, necessidades e tudo o mais que compõe o que chamam de ser humano. Essa responsabilidade é contraditoriamente desumana. Você cria a necessidade de disponibilizar o seu corpo mutuamente com o outro que escolheu pra viver o resto da vida. Por que preciso tomar cuidado com o outro? Devo tomar cuidado comigo mesmo, não sei o que vou pensar daqui a alguns minutos. Quero dizer que sei muito bem o que vou fazer, mas ainda não sei o que vou pensar. Pensar e fazer não estão diretamente relacionados.
Você quer fazer como? Perguntei. Ela afastou um pouco a cortina, observou o jardim. Voltou-se em direção a cama depositando a bolsa sobre o criado-mudo. Voltou para a janela abriu novamente a cortina.
Ainda não sei. Respondeu finalmente.
Quem diz que não sabe o que quer sabe pelo menos muito bem o que quer dizer com isso. Quer que o outro saiba por ela e tome os direcionamentos necessários para realizar o que de fato ela quer. Principalmente na situação em que estávamos. Eu estava encostado na porta, virei a chave e guardei no bolso da calça sem que ela percebesse. Desabotoei a camisa lentamente. Aquela conversa não estava me excitando, se demorasse muito talvez me desse até enjôo.
Então vai ficar por minha conta? Perguntei já tirando a camisa e pendurando no cabide. Ela voltou-se e viu o meu peito. Notei seu ar de espanto. Fiz de propósito, isso sempre funcionava. Sentou-se na cama e não tirou mais os olhos de mim. Isso sim começou a me excitar.
Inacreditável. Ela disse sorrindo passando as mãos nos cabelos. Sinal visível de nervosismo.
As pessoas acreditam em coisas que nunca viram. Outras elas vêem e repetem aquela frase ridícula do inacreditável. Está ali na sua frente e elas dizem que não conseguem acreditar. No entanto nunca viram Deus e acham que ele tá lá em cima tomando conta disso aqui. Isso sim pra mim é inacreditável. Quando faço uma coisa faço bem feita, procuro o máximo de perfeição. Não deixo margem para questionamentos de quem quer que seja principalmente a própria coisa feita se questionar. Imagine eu criar o homem e plantar nele a sementinha do livre arbítrio, um cara com os atributos de Deus jamais faria uma burrice dessas. A mistificação da estupidez. Acredite no que você vê no que você toca. No que você sente é mais complicado. Como você vai saber se o que está sentindo é realmente o que está sentindo? Como descrever o amor ou o ódio? Você vai ter que recorrer a palavras e aí meu amigo, palavras certas para o lugar certo é o grande problema. E a palavra certa no lugar certo raramente encontra o leitor ideal. Ou o leitor ideal não está propenso a entender o que a palavra certa quer dizer. Você também pode recorrer a gestos para demonstrar o que está sentindo e vamos incorrer em situações mais complicadas. Um gesto de ódio vai gerar agressão, um gesto de amor um carinho, vamos fatalmente convergir para aquele papo da Física da ação que corresponde a uma reação de efeito contrário, mas sentimentos estão fora da Física, uma agressão pode gerar revide ou fuga, um carinho pode gerar outro ou fuga ou uma agressão, mais uma vez vamos depender do outro. Inacreditável é o outro.
Tirei os sapatos e as meias e joguei ao lado. Comecei a desabotoar e fui caminhando em direção à cama. Fiquei de costas e desci a calça lentamente. Eu nunca usei cuecas. O maravilhoso traseiro se apresentou aos seus olhos. Observei pelo espelho a sua reação. Joguei a calça longe. Mantive as pernas um pouco abertas.
E agora? O que faço? Perguntou ela. Ainda não sabia o que queria. Mas sabia o que eu deveria fazer considerando tudo que ela falou. Quase nada. Mas suficiente para as minhas conclusões. Virei lentamente. Apresentei meu sexo quase colado ao seu rosto.
Mas como isso é possível?
Algumas pessoas passam a vida toda fazendo perguntas. Algumas elas sabem que não existem respostas. Perguntam para provocar o espanto no outro. Algumas perguntas têm respostas, mas elas não têm coragem de procurar e esperam que o outro passe por essa situação de mostrar que a resposta era aquela ou no meio do caminho desviar e dar quase a resposta correta ou desviar e desembocar no maravilhoso mundo da mentira da fantasia e da viagem por caminhos que só as perguntas podem nos levar. Aquela pessoa não fez outra coisa além de perguntar. Eu não tinha as respostas que ela queria. Ela estava nervosa. Não sei exatamente o que falaram a meu respeito, mas eu não faria com ela o que fiz com as outras. Eu nunca repito o que faço. Se ela está esperando as coisas que eu fiz com a amiga que me indicou está muito enganada. A pista para os meus procedimentos ela deu. Era virgem. Queria que eu tomasse cuidado com ela. Isso significa que não devo tomar cuidado algum e que ela quer ser estuprada e é isso que ela vai ter.
O que falaram a meu respeito? Perguntei talvez por curiosidade talvez para que ela dissesse alguma coisa diferente de uma pergunta.
Falaram que você é terrível. Que é um cara violento. Que é um fenômeno da natureza, um incrível fenômeno da natureza. Está aqui bem na minha frente esse corpo másculo maravilhoso, essas pernas, coxas, barriga, braços, peito e essa incrível e inesperada buceta no meio das pernas. Eu me pergunto como você conseguiu fazer isso?
Sempre a pergunta. Peguei sua mão direita e dirigi em direção à minha gigantesca buceta depilada, ela sentiu o clitóris se expandindo como a língua do céu se desenrola. Lento e azulado. Dei um passo para trás e desferi o soco na ponta do queixo o suficiente para que ela desmaiasse. Perfeito. Era o tipo que não se deixaria amarrar livremente. Presos os braços e as pernas, tirei suas roupas e esperei que ela acordasse. A mordaça impediria aquelas malditas perguntas.
Ver aquele corpo inerte e à mercê me fez lembrar de coisas que eu pensava ter esquecido e que vieram junto com um sentimento que não consigo descrever. Lembranças da vida toda que, dizem, sempre acontece antes de alguém morrer, mas eu não estava morrendo, ao contrário, estava com uma vida em minhas mãos e poderia dispô-la do jeito que eu bem entendesse. Divago. O assassinato não faz parte do contrato. O que ela me ofereceu para trabalhar foi a preservação de uma virgindade e a impossibilidade de machucá-la. Abro a maleta. Bisturis, afastadores, serras, martelo, chaves de fenda, facas, pênis siliconado de vinte e cinco centímetros, outro de vinte centímetros, lubrificantes, outros pequenos utensílios que não vale a pena mencionar aqui. Sinto a falta de alguma coisa, depois vou me lembrar. Retiro o pênis de vinte e cinco centímetros, encaixo no cinto e amarro na cintura. Ela está demorando muito a acordar. Talvez estivesse cansada. Lembrei dos gerânios no jardim, precisam de luz e de duas a três regas por semana, cuidados para não borrifar as folhas, gostam de ambientes secos, evitar empoçar água para não prejudicar a raiz. Gosto de gerânios, de azaléias, de gardênias, gosto da maioria das flores. Ninguém precisa ensinar uma flor a voltar, elas voltam sozinhas. Lembrei do que estava faltando na maleta, o gerânio seco que guardo num dos bolsos laterais, vou colher outro e substituir. Ela ainda não acordou, vou fazê-la cheirar amoníaco. Mesmo quando podamos uma flor, ela não precisa que ninguém a ensine a voltar, ela sabe voltar, o mesmo não acontece com os humanos, precisamos tomar muito cuidado na hora do corte, sangue não sabe voltar.
ENTRADAS E BANDEIRAS
ENTRADAS E BANDEIRAS
Pelas minhas contas seria o quinto. Cinco pessoas levaram a minha história e não entregaram à pessoa certa. O mesmo enredo em cinco versões diferentes e não consegui sensibilizar ninguém. Uma coisa é a história na cabeça a outra é a narrativa, se for falada então, talvez até complique. A história no papel nos dá a possibilidade de correção, de acertos, de supressão e acréscimos, coisa que a narrativa oral não nos permite, apesar do auxilio do gesto, da entonação da voz, mas as pessoas guardam apenas as imagens que formam nas suas cabeças. No jaleco do doutor estava escrito Residente do Hospital Geral do Recife, mandaram um novato residente, os antigos não me agüentavam mais. Com a alternância de surtos, lucidez, medicamentos, passeios pelo pátio, conversas com outros eternos internos, e outras atividades que eles criam e chamam de terapia ocupacional, eu nunca sabia com certeza quando estava lúcido ou surtado. Quero dizer surtado na concepção deles. O médico era jovem. Eu o aconselhei seguir a Neurologia, dava mais dinheiro, li num artigo da revista médica. Ele sorriu, quando eles não têm nenhuma resposta ou a resposta vai provocar algum desconforto, eles sempre sorriem. A janela do consultório era larga, o pátio ao fundo repleto de árvores, estava inclinada, levantei e aprumei a janela de acordo com a minha vontade, o médico acompanhou a inclinação e os seus óculos saíram um pouco do lugar. Retornei à minha cadeira, enquanto deixei o corpo ainda lá fora respirando a paisagem. Sou motorista de táxi. Meu táxi não tem rumo como todos os outros, quem estipula o rumo é o passageiro. A única coisa que necessito para o meu táxi é o combustível, o resto completo com o meu corpo. Ele está lá fora nesse momento, mas quando os fatos ocorreram, estávamos todos juntos, o táxi, eu, meu corpo, os passageiros, o caminho e o indispensável combustível. Na Avenida Boa Viagem, três jovens de vinte e poucos anos, talvez um pouco mais, no banco traseiro, era sábado e a praia prendia outros jovens, pelos pés, pelos cabelos, pelo sal, para fincarem bases na praia, e os três ali bem vestidos no banco traseiro. Perfumes caros, maresia e desconfiança impregnaram o interior do veiculo. O destino era aqui, Hospital Psiquiátrico do Recife, Rua do Padre Inglês. Dois bem claros e o do meio avermelhado talvez por estar imprensado entre os outros dois, talvez por estar amordaçado e amarrado. Certa vez fui amordaçado, um ritual que criei em busca de uma rima, outras pessoas não entenderam e me fizeram perguntas cujas respostas eu sabia mas não poderia pronunciar. Foi uma das piores torturas que já passei em toda a minha vida, o rapaz forçava as palavras na mordaça e elas molhavam e escorriam pelo canto da boca. Aquilo estava me deixando nervoso. Pedi para que retirassem a mordaça, no que fui rechaçado imediatamente. Forcei os caminhos da velocidade da minha luz, e cheguei a tempo de não me exceder. No estacionamento o carro parado as quatro portas abertas e pernas e braços e socos e pontapés para retirar o rapaz do meio. Assuntos de família não me meto, mas a mordaça me tornou irmão de um daqueles e os meus braços penetraram na situação, qual um fórceps, mas não consegui retirar o que era preciso dali, ao contrário, fui incluído como se fosse parte do problema e os três me amarraram me amordaçaram e me internaram. Meu táxi tem um dispositivo que o torna alado após alguns meses de inatividade. Não sei quantos meses já sofri aqui ou permaneci acordado, depois dê uma olhada no meu táxi voando ou ainda estacionado lá fora, vai depender da quantidade de meses, não sei. O número da placa, a cor, os adesivos, aqui estão. O residente é jovem, curioso, tenho certeza que vai procurar e entender tudo. Vai encontrar estacionado o carro com as características que falei, a mesma cor, a mesma placa. Num Hospício separam os internos por alas de acordo com o nível de lucidez, por este motivo, algumas narrativas parecidas provocam rachaduras no entendimento médico. Três motoristas contam a mesma história e os três automóveis estão lá fora abandonados. O residente entende que a culpa os obriga a liberá-los e a observar com mais cuidado os três rapazes de Boa Viagem que, estranhamente, não gostam de sol e que de vez em quando, desviam cidadãos para o abismo da loucura. Minha narrativa dessa vez encontrou o ouvinte certo. Recebi alta juntamente com meus dois companheiros. Meu corpo misturado ao pátio nunca mais, nem idéias turvas, vontades magoadas, felizmente encontrei dois companheiros com boa memória, repetiram incessantemente, a historia que nos deu a liberdade. A janela do pátio nos mostrava os automóveis que nos inspiraram essa idéia, a ingenuidade da juventude nos salvou. Respiramos um ar diferente depois do muro do Hospício, um ar sem remédios, sem remendos, agora precisamos aprender a procurar novos surtos.
Pelas minhas contas seria o quinto. Cinco pessoas levaram a minha história e não entregaram à pessoa certa. O mesmo enredo em cinco versões diferentes e não consegui sensibilizar ninguém. Uma coisa é a história na cabeça a outra é a narrativa, se for falada então, talvez até complique. A história no papel nos dá a possibilidade de correção, de acertos, de supressão e acréscimos, coisa que a narrativa oral não nos permite, apesar do auxilio do gesto, da entonação da voz, mas as pessoas guardam apenas as imagens que formam nas suas cabeças. No jaleco do doutor estava escrito Residente do Hospital Geral do Recife, mandaram um novato residente, os antigos não me agüentavam mais. Com a alternância de surtos, lucidez, medicamentos, passeios pelo pátio, conversas com outros eternos internos, e outras atividades que eles criam e chamam de terapia ocupacional, eu nunca sabia com certeza quando estava lúcido ou surtado. Quero dizer surtado na concepção deles. O médico era jovem. Eu o aconselhei seguir a Neurologia, dava mais dinheiro, li num artigo da revista médica. Ele sorriu, quando eles não têm nenhuma resposta ou a resposta vai provocar algum desconforto, eles sempre sorriem. A janela do consultório era larga, o pátio ao fundo repleto de árvores, estava inclinada, levantei e aprumei a janela de acordo com a minha vontade, o médico acompanhou a inclinação e os seus óculos saíram um pouco do lugar. Retornei à minha cadeira, enquanto deixei o corpo ainda lá fora respirando a paisagem. Sou motorista de táxi. Meu táxi não tem rumo como todos os outros, quem estipula o rumo é o passageiro. A única coisa que necessito para o meu táxi é o combustível, o resto completo com o meu corpo. Ele está lá fora nesse momento, mas quando os fatos ocorreram, estávamos todos juntos, o táxi, eu, meu corpo, os passageiros, o caminho e o indispensável combustível. Na Avenida Boa Viagem, três jovens de vinte e poucos anos, talvez um pouco mais, no banco traseiro, era sábado e a praia prendia outros jovens, pelos pés, pelos cabelos, pelo sal, para fincarem bases na praia, e os três ali bem vestidos no banco traseiro. Perfumes caros, maresia e desconfiança impregnaram o interior do veiculo. O destino era aqui, Hospital Psiquiátrico do Recife, Rua do Padre Inglês. Dois bem claros e o do meio avermelhado talvez por estar imprensado entre os outros dois, talvez por estar amordaçado e amarrado. Certa vez fui amordaçado, um ritual que criei em busca de uma rima, outras pessoas não entenderam e me fizeram perguntas cujas respostas eu sabia mas não poderia pronunciar. Foi uma das piores torturas que já passei em toda a minha vida, o rapaz forçava as palavras na mordaça e elas molhavam e escorriam pelo canto da boca. Aquilo estava me deixando nervoso. Pedi para que retirassem a mordaça, no que fui rechaçado imediatamente. Forcei os caminhos da velocidade da minha luz, e cheguei a tempo de não me exceder. No estacionamento o carro parado as quatro portas abertas e pernas e braços e socos e pontapés para retirar o rapaz do meio. Assuntos de família não me meto, mas a mordaça me tornou irmão de um daqueles e os meus braços penetraram na situação, qual um fórceps, mas não consegui retirar o que era preciso dali, ao contrário, fui incluído como se fosse parte do problema e os três me amarraram me amordaçaram e me internaram. Meu táxi tem um dispositivo que o torna alado após alguns meses de inatividade. Não sei quantos meses já sofri aqui ou permaneci acordado, depois dê uma olhada no meu táxi voando ou ainda estacionado lá fora, vai depender da quantidade de meses, não sei. O número da placa, a cor, os adesivos, aqui estão. O residente é jovem, curioso, tenho certeza que vai procurar e entender tudo. Vai encontrar estacionado o carro com as características que falei, a mesma cor, a mesma placa. Num Hospício separam os internos por alas de acordo com o nível de lucidez, por este motivo, algumas narrativas parecidas provocam rachaduras no entendimento médico. Três motoristas contam a mesma história e os três automóveis estão lá fora abandonados. O residente entende que a culpa os obriga a liberá-los e a observar com mais cuidado os três rapazes de Boa Viagem que, estranhamente, não gostam de sol e que de vez em quando, desviam cidadãos para o abismo da loucura. Minha narrativa dessa vez encontrou o ouvinte certo. Recebi alta juntamente com meus dois companheiros. Meu corpo misturado ao pátio nunca mais, nem idéias turvas, vontades magoadas, felizmente encontrei dois companheiros com boa memória, repetiram incessantemente, a historia que nos deu a liberdade. A janela do pátio nos mostrava os automóveis que nos inspiraram essa idéia, a ingenuidade da juventude nos salvou. Respiramos um ar diferente depois do muro do Hospício, um ar sem remédios, sem remendos, agora precisamos aprender a procurar novos surtos.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
TRANSFERÊNCIA
Bebeu o beijo de um só gole. Tinha pouco tempo. Sabia que não o veria nunca mais. Não havia mais esperança. Preferiu trocar o carinho por uma descida lenta pela escada. Cinco lances largos sabendo à detergente. Usou aquele momento para lembrar de tudo que havia acontecido entre eles. As lembranças eram maiores que o tempo da descida. O carro estava esperando em frente ao hospital. Entrou rápido.
- Para onde vamos, capitão?
- Para o aeroporto.
- Sim senhor.
- Para onde vamos, capitão?
- Para o aeroporto.
- Sim senhor.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
PARTO DE SOPA
Há vinte anos não jantava com o meu pai. Os objetos postos, pratos, talheres, a fumaça da sopa, o vazio das xícaras. Ele tem a saúde que a idade permite, e os respectivos remédios. Tem a fome necessária e os cuidados da saciedade. É um homem altivo, ativo, autônomo, vende idéias pra quem precisa, para quem não precisa ele cobra o dobro. Ele nunca me forneceu uma idéia diretamente. Eu preciso prestar muita atenção. Às vezes um gesto vem com uma idéia embutida que pode modificar todo um planejamento ou gerar outro. Embora poucas vezes eu tenha ficado assim a sós com ele como estou nesse momento. Quatro vezes que eu me lembre. Quatro idéias. Ele não tocou no assunto do meu divórcio, talvez porque eu não tenha tocado quando da sua viuvez. A diferença é que a pensão ficou pra ele. Antigamente ele tomava a sopa quente com um pãozinho comum, agora espera esfriar e come pão de centeio, café com adoçante e o sal fica ao lado do meu prato, eu ainda posso salgar as coisas. Lembrei do episódio da cacimba no quintal. Eu segurei na corda e fui até o fundo e lá embaixo a corda arrebentou. Foi a primeira vez que eu gritei pelo meu pai. Ele não estava em casa e eu sabia, mas só conseguia chamar por ele. Agora as bordas do prato convidativas, apesar da sopa quente, fiz uma corda de sal e desci até o fundo do prato. Esbarrei nos pedaços da batata, da cebola, coentro, fragmentos de macarrão, eu nunca aprendi a nadar. Ergui os braços consegui agarrar num osso e gritei para que o meu pai me salvasse. Foi quando ele revelou que estava em casa durante o episódio da cacimba. Ouviu meus gritos, mas não acreditou, achou que fosse uma brincadeira de criança e naquele momento me vendo mergulhado no prato de sopa e sabendo ser um reflexo dessa lembrança, não acha que deva se meter nisso, provavelmente outra brincadeira, dessa vez uma brincadeira de adulto. E o prato nem é tão fundo assim, não há paredes escorregadias, a borda é rasa, acha que com um pouco de esforço eu vou conseguir me sair dessa sem que ele precise interferir. Concordo com quase tudo que ele disse, porém a sopa está quente e acho que ele desconhece o cheiro de um corpo quando está sendo cozinhado. Um homem com tantas idéias e não sabe proceder quando as coisas são tão simples. Mergulhei me misturei aos temperos e fugi do prato em forma de fumaça.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
PLANO DE VÔO
Brito sentou-se no banco da praça. Recostou-se enquanto suspirava. Lembrou do automóvel no leasing, do apartamento financiado. Das roupas e sapatos no crediário. Do pedido de divórcio da sua esposa. Do relatório a ser entregue às nove horas e o seu relógio digital, comprado em doze vezes iguais sem juros, marcava oito horas e quarenta e três minutos. Brito constatou que nada era dele. Nem o tempo. Subiu lentamente no encosto do banco e começou a bater os braços, primeiro devagar depois foi aumentando a velocidade e os braços tornaram-se asas. Brito começou a voar, sobrevoou a praça, passou os fios, alcançou as nuvens e planou sobre o mundo que se distanciava lá embaixo. Brito não sabia que sabia voar. Descobriu um momento que era dele. Continuou voando até lembrar que em algum momento precisaria pousar.
segunda-feira, 8 de março de 2010
CARA COROA
Em poucos momentos da minha vida pensei em meu marido. Passam-se as horas os dias e nunca penso nele. Aliás, ele nunca me deu motivo pra pensar nele. Agora aconteceu a necessidade de pensar. Na sua barriga, no seu cheiro azedo de suor que não sai nunca, na boca pobre e podre de palavras e dentes, no seu chulé, na sovaqueira, no banho que não modifica nada, nas mãos indelicadas, no gozo solitário dele. Ele não era assim e não fui eu quem o transformei. A vida vai passando e os corpos e os olhos vão se acomodando e o melhor remédio para não perceber é deixar de pensar o que o tempo faz com o corpo que, em algum momento, declaramos amar. De repente aquele desconhecido na minha frente, me fez pensar no meu marido, era preciso comparar aquilo em casa com esse homem alto, não muito bonito, sem barriga, perfumado, dentes de verdade, talvez cinqüenta anos, bem vestido, num carro preto lindo, dizendo que me leva para onde eu quiser, mas nós dois sabendo que ele iria me levar para onde ele quisesse, se eu dissesse que ia pro céu ele iria comigo, foi nesse momento em que pensei no meu marido, no inferno em que eu vivia, pensei duas, três vezes e mais tantas vezes e em todas as respostas sempre era sim, sim e eu fui pra onde ele queria. Na entrada uma cachoeira e as alamedas repletas de flores e verde e mais água corrente, a garagem que se abre e depois se fecha atrás de nós. Escadas de mármore, luzes escondidas, um momento repleto de espelhos, eu me senti uma rainha, muitas rainhas me olhando, não quer tomar um banho? Claro. Fechei a porta sem perceber que as paredes do banheiro eram de vidro, eu flutuava entre o vidro e a água. Saí enrolada na toalha e o encontrei sem camisa e com duas taças de champanhe. Não obrigada, não bebo. Pra comemorar, só um gole. Resolvi imitá-lo virando a taça de uma vez e acordei aqui.
Eu sinto como se um trem tivesse entrado por dentro de mim, procurando trilhos e estações e com esse movimento tivesse rompido todos os meus sentidos e sentimentos. Eu não sabia como o meu corpo estava ou se estava. Ouvi a voz do meu marido. Como foi isso minha filha? Quem ia fazer isso com uma pessoa tão boa? Quem mundo é esse? Eu não conseguia falar, se eu pudesse diria, pois é encontrei um desconhecido na rua, foi quando comecei a pensar em você.
Eu sinto como se um trem tivesse entrado por dentro de mim, procurando trilhos e estações e com esse movimento tivesse rompido todos os meus sentidos e sentimentos. Eu não sabia como o meu corpo estava ou se estava. Ouvi a voz do meu marido. Como foi isso minha filha? Quem ia fazer isso com uma pessoa tão boa? Quem mundo é esse? Eu não conseguia falar, se eu pudesse diria, pois é encontrei um desconhecido na rua, foi quando comecei a pensar em você.
O COMPANHEIRO ESMAGADO PELO SENTIMENTO
Aconteceu durante o banho. Os orifícios do chuveiro se dilataram e as coisas começaram a cair juntamente com a água. Automóveis, pessoas, outros objetos, sentimentos, todos misturados caindo sobre a minha cabeça e escorrendo pelo meu corpo. O ralo permaneceu imutável. A água escorria enquanto as outras coisas iam se acumulando ao meu redor e atrapalhavam os meus movimentos. Ouvi o companheiro bater à porta e toda aquela movimentação não me permitia abri-la. Era nosso costume não travar a porta do banheiro exceto em caso de masturbação ou um choro que o outro não deveria saber. Perguntou se eu estava soluçando depois se eu estava gozando. Na verdade eu não ia chorar nem me masturbar. O travamento inconsciente estava relacionado com aquelas coisas caindo sobre mim. O barulho permitia essa dúvida. Eu não sabia o que responder. As coisas foram se acumulando tolhendo os meus movimentos até a paralisação total. Mesmo com meu corpo imóvel as coisas continuaram caindo até o soterramento completo. Tudo ficou escuro. Ouvi o vidro do boxe arrebentando e isso pouco alterou na movimentação do meu corpo. Estranhamente minha respiração não foi alterada. Algum ar entrava por algum caminho que ficou aberto. Com o preenchimento completo do espaço por tudo que havia caído, o chuveiro foi obstruído e nada mais entrava. Esperei que a janela do banheiro não agüentasse a pressão e arrebentasse. Não demorou muito a janela começou a expelir pequenos objetos que permitiu alguma movimentação do meu corpo. Consegui alcançar a porta mas os poucos objetos que saíram ainda não permitiam a abertura da porta. Gritei para o companheiro do outro lado para que arrombasse a porta com um machado ou um pé de cabra e tivesse cuidado porque coisas iriam cair em cima dele. Momentos depois vi a ponta do pé de cabra começar a forçar a porta. Logo depois a porta se abriu e fui jogado juntamente com as outras coisas corredor a fora. Com a movimentação a torneira voltou a jorrar outras coisas e fomos empurrados pela sala em direção à varanda e caímos junto com tudo do quarto andar. Num último esforço ainda consegui tocar numa das mãos do companheiro. Depois fomos separados. Ele não conseguiu sobreviver os sentimentos caíram sobre ele. Eu estou aqui no hospital repetindo essa história há meses e os médicos não acreditam. A polícia não acredita. Recorro ao leitor minha ultima esperança. Vocês acreditam?
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Ponto de vista
Com a cabeça inclinada, a lágrima cai na lente dos óculos e embaça a paisagem composta de um par de sapatos rotos e ladrilhos irregulares que formam cigarros fumados por cães, nuvens escalando manadas, fugas sem amparo. Por um momento a disposição das coisas a sua frente o faz esquecer porque está triste. Um momento muito curto. Tudo volta e a segunda lágrima escorre pelo rosto ao encontro da boca. Retira os óculos para enxugar e descobre uma paisagem melhor com tudo fora de foco. Um mundo melhor assim inexato. Levanta-se deixa os óculos sobre o banco da praça e segue arrastando o mundo preso ao calcanhar.
Com a cabeça inclinada, a lágrima cai na lente dos óculos e embaça a paisagem composta de um par de sapatos rotos e ladrilhos irregulares que formam cigarros fumados por cães, nuvens escalando manadas, fugas sem amparo. Por um momento a disposição das coisas a sua frente o faz esquecer porque está triste. Um momento muito curto. Tudo volta e a segunda lágrima escorre pelo rosto ao encontro da boca. Retira os óculos para enxugar e descobre uma paisagem melhor com tudo fora de foco. Um mundo melhor assim inexato. Levanta-se deixa os óculos sobre o banco da praça e segue arrastando o mundo preso ao calcanhar.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Entulhos
Terminada a construção do universo, Lúcifer, engenheiro responsável pelo cálculo estrutural, constatou uma grande quantidade de sobras de material e resolveu questionar o mestre de obras a respeito do assunto.
- mestre, todo esse material que sobrou, o que vamos fazer com ele?
- o resto é literatura, meu filho, o resto é literatura.
Terminada a construção do universo, Lúcifer, engenheiro responsável pelo cálculo estrutural, constatou uma grande quantidade de sobras de material e resolveu questionar o mestre de obras a respeito do assunto.
- mestre, todo esse material que sobrou, o que vamos fazer com ele?
- o resto é literatura, meu filho, o resto é literatura.
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